O impacto no ADN é devastador. Fumar 20 cigarros por dia é igual a ter, em média, 150 novas mutações genéticas por ano, nos pulmões. E todos os órgãos são atingidos, mesmo os que não estão em contacto direto com o fumo inalado. Ou seja, as células dos fumadores acumulam um risco maior para desenvolver diferentes cancros. São os novos malefícios do tabaco revelados num estudo publicado na revista "Science".
Os cigarros contém 70 substâncias cancerígenas que interagem com o organismo humano e desenvolvem doenças complexas e mortais. Até agora o tabagismo está ligado a 17 cancros. O que não se sabia ainda é que o fumo inalado começa por provocar estragos no ADN, ativando os processos mutacionais logo no interior das células. A relação foi estabelecida pela primeira vez numa investigação coordenada pelo Instituto Wellcome Trust Sanger (Reino Unido) e do Laboratório Nacional de Los Alamos (Estados Unidos), em colaboração com cientistas de Itália, Bélgica, Coreia do Sul e Japão.
A equipa analisou e comparou 5243 tumores de fumadores
e não fumadores e descobriu que as mutações celulares eram muito mais elevadas
entre as pessoas que tinham o vício de fumar. A partir das células dos pulmões,
estabeleceram a relação entre o número de cigarros fumados e o número de alterações
observadas e concluíram que um maço por dia causa 150 novas mutações por ano.
Embora com impactos diferentes, os mesmos cigarros também deixam marcas nos
órgãos que não estão em contacto direto com o fumo: no ADN da bexiga,
mediram-se 18 alterações e seis no fígado.
As mutações genéticas que se acumulam durante uma vida
nas células dos fumadores podem ser mais um argumento a usar em futuras
campanhas de prevenção contra o tabagismo. Na opinião de Agostinho Marques,
diretor do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar de São João, uma pessoa
que fuma 20 cigarros “fica agora a saber exatamente que está a provocar uma
quantidade enorme de mutações”.
A Organização Mundial de Saúde estima que todos os
anos morrem pelo menos 6000 milhões de fumadores e, que até ao final do século,
serão mais de 10000 milhões. As mutações podem ou não acertar nos genes
associados ao cancro. Sorte ou azar. Valerá a pena arriscar?
Ficha
Técnica
- Título: Tabaco e Mutações Genéticas
- Tipologia: Reportagem
- Autoria: Paula Rebelo
- Produção: RTP
- Ano: 2016
Sem comentários:
Enviar um comentário